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Regime simplificado da LGPD para pequenas empresas: o que muda e quem se qualifica

A Resolução CD/ANPD nº 2/2022 criou um regime de tratamento diferenciado para microempresas, empresas de pequeno porte, startups, MEI e entidades sem fins lucrativos. O regime reduz parte da carga documental da LGPD, mas não isenta ninguém das obrigações de fundo. Este artigo explica quem se qualifica, o que muda na prática e onde o regime simplificado não se aplica.

18 de setembro de 2026
8 min de leitura
Principais pontos
  • A Resolução CD/ANPD nº 2/2022 regulamenta um regime simplificado para microempresas, pequenas empresas, startups, MEI e entidades sem fins lucrativos
  • O enquadramento é definido por faturamento anual: até R$360 mil para microempresas, até R$4,8 milhões para pequenas empresas e até R$16 milhões para startups inovadoras
  • Os principais benefícios são a dispensa do encarregado formal, registro simplificado de tratamento e prazos em dobro para atender titulares e notificar incidentes
  • Quem faz tratamento de alto risco perde o regime, qualquer que seja o faturamento. Alto risco exige ao menos um critério geral (larga escala ou impacto significativo em direitos) somado a ao menos um critério específico (por exemplo, dados sensíveis ou de crianças, adolescentes e idosos)
  • O regime simplificado reduz a carga documental, mas não dispensa nenhuma das obrigações de fundo da LGPD

Quem se qualifica para o regime simplificado

A Resolução CD/ANPD nº 2, de 27 de janeiro de 2022, regulamenta a aplicação da LGPD a agentes de tratamento de pequeno porte. A norma reconhece que exigir a mesma estrutura de conformidade de uma multinacional e de um microempreendedor individual não faz sentido prático, e cria um regime com obrigações proporcionais ao porte do negócio.

O regime se aplica a quatro categorias de agentes de tratamento: microempresas e empresas de pequeno porte enquadradas na Lei Complementar nº 123/2006, startups caracterizadas pela Lei Complementar nº 182/2021, pessoas jurídicas de direito privado sem fins lucrativos, e pessoas naturais e entidades despersonalizadas que tratam dados pessoais. Microempreendedores individuais (MEI) entram na categoria de microempresas para efeitos da resolução.

Os limites de faturamento

O enquadramento no regime simplificado depende do faturamento bruto anual do agente de tratamento no exercício anterior:

1
Microempresa (ME)
Faturamento anual igual ou inferior a R$360.000. Inclui microempreendedores individuais (MEI) para efeitos da resolução.
2
Empresa de Pequeno Porte (EPP)
Faturamento anual superior a R$360.000 e igual ou inferior a R$4,8 milhões, conforme os limites da Lei Complementar nº 123/2006.
3
Startup
Receita bruta de até R$16 milhões no ano-calendário anterior, caracterizada pela inovação aplicada a modelo de negócios ou produtos, nos termos da Lei Complementar nº 182/2021 (Marco Legal das Startups).
O faturamento não é o único critério

Estar dentro do limite de faturamento é condição necessária, mas não suficiente. O regime simplificado só se aplica quando o tratamento de dados também respeita as restrições de escopo descritas mais adiante neste artigo. Uma pequena empresa que trata dados de saúde em larga escala, por exemplo, não se qualifica mesmo estando dentro do teto de faturamento.

Os benefícios do regime simplificado

Para os agentes de tratamento que se qualificam, a resolução flexibiliza quatro exigências que normalmente demandam estrutura dedicada:

1
Dispensa do encarregado formal
O agente de pequeno porte não precisa indicar um encarregado de proteção de dados nos moldes do Art. 41, desde que disponibilize um canal de comunicação claro para que titulares e a ANPD possam entrar em contato sobre o tratamento de dados.
2
Registro simplificado de operações
O ROPA pode ser mantido em formato simplificado, com menos detalhamento do que o exigido de grandes controladores, desde que continue identificando as atividades de tratamento, as finalidades e os dados envolvidos.
3
Prazos em dobro para atender titulares
O prazo para responder a solicitações de titulares de dados dobra em relação ao prazo padrão aplicado a agentes de grande porte, dando mais tempo para empresas sem estrutura dedicada de atendimento a privacidade.
4
Prazo estendido para notificar incidentes
O prazo para comunicar incidentes de segurança à ANPD dobra: 6 dias úteis, contra os 3 dias úteis do prazo padrão da Resolução CD/ANPD nº 15/2024.
5
Relatório de impacto simplificado
Quando a ANPD exige um Relatório de Impacto à Proteção de Dados Pessoais (RIPD), o agente de pequeno porte pode apresentar uma versão simplificada, com menos exigências formais do que a versão completa.

O que fica de fora do regime simplificado

O art. 3º da Resolução CD/ANPD nº 2/2022 tira o tratamento diferenciado de três grupos, qualquer que seja o porte declarado: quem realiza tratamento de alto risco, quem ultrapassa os limites de receita bruta e quem pertence a um grupo econômico, de fato ou de direito, cuja receita global ultrapassa esses limites. A exclusão vale para a empresa como um todo, não para uma atividade isolada.

Como a resolução define alto risco (art. 4º)

O tratamento é de alto risco quando atende, cumulativamente, a pelo menos um critério geral e a pelo menos um critério específico.

Critérios gerais: tratamento em larga escala; ou tratamento que possa afetar significativamente interesses e direitos fundamentais dos titulares.

Critérios específicos: uso de tecnologias emergentes ou inovadoras; vigilância ou controle de zonas acessíveis ao público; decisões tomadas unicamente com base em tratamento automatizado, inclusive perfilamento; uso de dados sensíveis ou de dados de crianças, adolescentes e idosos.

Um critério específico sozinho não basta. Uma pequena clínica que trata prontuários (dados sensíveis) só perde o regime se também tratar dados em larga escala ou de forma que possa afetar significativamente os direitos dos pacientes. Na prática, a avaliação pesa sobre laboratórios e clínicas com grande volume de pacientes, plataformas educacionais voltadas a menores, aplicativos com geolocalização contínua e negócios que usam scoring ou perfilamento automatizado. Documente essa análise: é ela que sustenta o enquadramento se a ANPD pedir comprovação.

Regime simplificado não é isenção

O erro mais comum entre pequenas empresas é interpretar o regime simplificado como uma isenção geral da LGPD. Não é. Todas as obrigações de fundo continuam valendo: base legal para cada tratamento, segurança da informação proporcional ao risco, aviso de privacidade claro, atendimento aos direitos dos titulares e responsabilidade em caso de incidente ou vazamento.

O que muda é a forma como a empresa demonstra conformidade, não o conteúdo das obrigações. Uma microempresa dispensada de indicar um encarregado formal ainda precisa ter um processo real para receber e responder solicitações de titulares. Uma EPP com registro simplificado de tratamento ainda precisa saber, documentadamente, quais dados coleta e por quê.

O regime simplificado reduz a burocracia de comprovar conformidade. Não reduz o padrão de proteção que os dados dos seus clientes recebem.

Como comprovar o enquadramento

A ANPD pode solicitar, a qualquer momento, a comprovação do enquadramento no regime simplificado, especialmente em resposta a uma denúncia ou durante uma fiscalização. Mantenha documentado o faturamento anual da empresa, o enquadramento tributário ou societário (ME, EPP, MEI ou startup elegível pela Lei Complementar nº 182/2021) e uma descrição das atividades de tratamento que demonstre que nenhuma delas se enquadra nas exclusões do regime.

Empresas que crescem e ultrapassam os limites de faturamento durante o ano devem reavaliar seu enquadramento no início do exercício seguinte. Da mesma forma, uma empresa que lança um produto ou serviço com dados sensíveis ou de crianças precisa refazer a análise de alto risco. Se o novo tratamento preencher um critério geral e um específico, a empresa inteira perde o tratamento diferenciado.

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Perguntas frequentes sobre o regime simplificado da LGPD

Uma microempresa fica totalmente isenta da LGPD?

Não. O regime simplificado reduz parte da carga documental, como a dispensa de encarregado formal e o registro simplificado de tratamento, mas todas as obrigações de fundo continuam valendo: base legal para cada tratamento, segurança proporcional ao risco, aviso de privacidade e atendimento aos direitos dos titulares.

Como sei se minha empresa se qualifica para o regime simplificado?

O enquadramento depende do faturamento anual: até R$360 mil para microempresas, até R$4,8 milhões para empresas de pequeno porte, ou até R$16 milhões para startups elegíveis pela Lei Complementar nº 182/2021. A empresa também não pode pertencer a grupo econômico cuja receita global ultrapasse esses limites, nem realizar tratamento de alto risco, ou seja, combinar um critério geral (larga escala ou impacto significativo em direitos) com um critério específico, como dados sensíveis, dados de crianças, adolescentes e idosos, ou decisões automatizadas.

Uma clínica pequena se qualifica para o regime simplificado?

Depende. Dados de saúde são sensíveis e preenchem um critério específico de alto risco, mas isso não basta. A clínica só perde o regime se o tratamento também preencher um critério geral: ser em larga escala ou poder afetar significativamente os interesses e direitos fundamentais dos pacientes. Uma clínica pequena, com volume moderado de pacientes, pode se qualificar; registre por escrito a análise que sustenta essa conclusão.

O que acontece se minha empresa crescer e ultrapassar o limite de faturamento?

A empresa deixa de se qualificar para o regime simplificado a partir do momento em que ultrapassa o teto de faturamento do seu enquadramento. É recomendável reavaliar o enquadramento no início de cada exercício e ajustar a documentação de conformidade para o padrão exigido de agentes de tratamento sem o benefício do regime simplificado.

Ainda preciso ter uma política de privacidade se estou no regime simplificado?

Sim. O regime simplificado não dispensa o aviso de privacidade nem nenhuma das demais obrigações de transparência da LGPD. O que muda é a formalidade do registro interno de operações de tratamento e a dispensa da indicação de um encarregado nos moldes do Art. 41, desde que exista um canal de comunicação funcional com os titulares.

Ryland Deakin
Sobre o autor
Consultor Líder, Cyvra

Ryland lidera programas de cibersegurança, conformidade e gestão de TI para organizações regulamentadas no Brasil, Reino Unido e Países Baixos há mais de 20 anos. Perfil completo

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